Últimas Notícias

90% do lixo eletrônico do mundo são jogados em países africanos

Foto de capa da notícia

Com o título “Da ciência à ação: trabalhando para um futuro mais seguro”, um evento reuniu quase 1.200 participantes de 171 países (entre eles o Brasil) em Genebra, na Suíça, entre os dias 4 a 15 de maio. O objetivo foi pensar sobre a maneira mais ecologicamente correta de o mundo se livrar do lixo eletrônico e dos chamados poluentes orgânicos (pesticidas).

O nome do encontro é extenso: Conferência das Partes das Convenções de Basileia, Estocolmo e Roterdam. Ele reúne os países signatários a estes três tratados que traçaram estratégias nesse sentido. Acontece de dois em dois anos e, dessa vez, converge com a COP-21, que vai acontecer no fim do ano em Paris, de onde se espera um acordo mundial que vá cuidar de livrar o planeta de outro risco, o das emissões de carbono. Ou seja: a um só tempo a humanidade cria meios de se envenenar e busca fabricar antídotos. E assim caminhamos em nossa era dos paradoxos.

No quesito lixo eletrônico, é a África que mais sofre. Segundo dados da United Nations Environment Programme (Unep), órgão das Nações Unidas voltado para o meio ambiente, até 90% do lixo eletrônico do mundo são despejados de qualquer jeito, sobretudo nesse continente, sem obedecer a nenhum critério ou respeito pelo homem ou pela natureza.

Repórteres da Deutsche Welle (DW) emissora internacional da Alemanha, publicaram uma reportagem no site da instituição em 2012 (veja aqui) descrevendo o horror que é trabalhar num lixão de produtos eletrônicos em Gana, que naquela época tinha em seu território 170 mil toneladas de lixo eletrônico. O ar é insuportável, contam, e muitos catadores que ganham a vida vendendo aqueles produtos acabam adoecendo.

No que difere dos nossos lixões? É que lá há certeza de os catadores estarem mexendo com artefatos altamente tóxicos, aqui nem sempre. Um detalhe nada irrelevante.

Mas vale a pergunta: por que exportar para a África artigos eletrônicos defeituosos ou inoperantes? Segundo os jornalistas, a razão é simples: custa mais barato do que reciclar devidamente os resíduos no mundo industrializado de onde se originam.

“Um negócio muito mais lucrativo é vender o lixo eletrônico a negociantes locais, que o importam alegando tratar-se de material usado. Os negociantes depois vendem o lixo a jovens no mercado e eles o desmantelam e extraem os fios de cobre. Estes são derretidos em lareiras ao ar livre, poluindo o ar e, muitas vezes, intoxicando diretamente os próprios jovens”, diz o texto da reportagem.

Na reunião em Genebra, foram dados alguns passos para acertar o conceito de lixo eletrônico. Há os aparelhos que pararam de funcionar porque estão obsoletos, para os quais não há mais peças. Há aqueles que ainda funcionam, mas, simplesmente, são trocados porque surgiram outros, mais novos. Lá também foram estipuladas orientações de reciclagem, reparo e reuso de elementos não perigosos dos aparelhos. Será, talvez, o primeiro tratado internacional que prevê tais medidas.

Agrotóxicos

E, já que o Brasil continua insistindo na posição de maior país consumidor de agrotóxicos do mundo, vale a pena olharmos com atenção o que foi debatido sobre poluentes orgânicos persistentes na reunião de Genebra.

Houve certo desânimo entre os participantes, segundo o site oficial do evento (leia aqui, em inglês). É que há 11 anos os países signatários se debruçam sobre o tema e, dessa vez, não conseguiram consenso sobre a periculosidade de alguns itens. O Brasil é signatário de todas as Convenções que debateram a questão.

Secretário Executivo da FAO (Food and Agriculture Organization) na Convenção de Roterdam, Clayton Campanhola comentou, na reunião de Genebra, que "pesticidas perigosos não estão ajudando os países a produzirem mais alimentos e, ao contrário disso, estão causando impactos negativos sobre os recursos naturais e a saúde das comunidades rurais e consumidores”. Um recado direto para as grandes empresas produtoras de tais químicas, que alegam que elas são necessárias para livrar a agricultura de pragas e, assim, conseguir alimentar as 7 bilhões de pessoas.

Pois até mesmo a bióloga Rachel Carson, considerada a precursora na luta contra os pesticidas, cuja tese publicada em livro – “Primavera silenciosa” (Ed. Gaia) – conseguiu forçar a proibição do uso do DDT nos Estados Unidos em 1972, já foi contestada. James Lovelock, o polêmico físico autor da Teoria de Gaia* em 1979, no seu último livro, lançado ano passado – “A Rough Ride to the Future”, ainda sem tradução no Brasil – acusa Carson de ter provocado a morte de milhões de pessoas, já que sem o DDT para controlar a malária, a doença se espalhou.

Só há um problema nessa declaração do físico, diz o jornalista George Monbiot em seu blog no jornal britânico “The Guardian” (leia aqui, em inglês). O problema é que não é verdade. Não houve proibição para o uso de DDT para efeitos de controle de malária. A proibição é para usos agrícolas, e uma das razões para isso era o de garantir, justamente, que os mosquitos da malária não se tornassem imune ao DDT.

“Em outras palavras, a realidade é exatamente o oposto da afirmação de Lovelock: a proibição do uso indiscriminado do DDT é provável que tenha salvado vidas ao invés de destruí-las”, escreve Monbiot.

Em linhas gerais, os poluentes orgânicos persistentes têm propriedades tóxicas, são resistentes à degradação, são transportados pelo ar, pela água e pelas espécies migratórias atravessando fronteiras. Acumulam-se em ecossistemas terrestres e aquáticos.

Ou seja: não dá para relativizar sobre produtos que trazem tantos problemas, não só às pragas que foram criados para combater, mas à vida humana e de outras espécies no planeta. O jeito que se tem é conseguir criar outros antídotos aos nossos próprios venenos e eliminar os mais perigosos. Nesse sentido é que se percebe a importância de encontros internacionais como esse, de Genebra.

Reunidos na Convenção de Estocolmo, em 2004, os especialistas conseguiram a proibição, entre os países signatários, de 12 espécies de Poluentes Orgânicos Persistentes, entre eles o DDT.

Já o encontro de Genebra ratificou que: naftalenos policlorados, hexaclorobutadieno e pentaclorofenol e seus sais e ésteres são Poluentes Orgânicos Persistentes que ameaçam a saúde humana e o meio ambiente. E Metamidofós é um inseticida organofosforado extremamente tóxico, causando sérios efeitos adversos para a saúde humana, em particular para o sistema nervoso e sistemas reprodutivos. Este último foi banido do Brasil em 2012.

Autor: G1 globo.com.
Fonte: G1 globo.com.