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Rumo a 4 bilhões de toneladas por ano

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É a previsão da ONU para o ano de 2050, no atual ritmo de crescimento. Nas três últimas décadas, geração de resíduos urbanos aumentou três vezes mais rápido que a população. Países buscam saídas para enfrentar alto custo ambiental e financeiro

Sete bilhões de seres humanos produzem anualmente 1,4 bilhão de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) — uma média de 1,2 kg por dia per capita. Quase a metade desse total é ­gerada por menos de 30 países, os mais desenvolvidos do mundo. Se o número parece assustador, cenário ainda mais ­sombrio é traçado por estudos da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Mundial: daqui a dez anos, serão 2,2 bilhões de toneladas anuais. Na metade deste século, se o ritmo atual for mantido, teremos 9 bilhões de habitantes e 4 bilhões de toneladas de lixo urbano por ano.

Não faz muito tempo, a produção de RSU era de algumas dezenas de quilos por habitante por ano. Hoje, a maioria dos países mais industrializados gera mais de 600 quilos anuais per capita de lixo. Nos últimos 30 anos, o aumento do volume de lixo produzido no mundo foi três vezes maior que o populacional. O índice per capita de geração de lixo nos países mais ricos aumentou 14% desde 1990 e 35% desde 1980, aponta relatório do Banco Mundial. Em geral, essas taxas crescem em um ritmo ligeiramente inferior ao aumento do produto interno bruto (PIB).

Paga-se um elevado custo ambiental e financeiro por isso. A maior parte dos RSU produzidos no mundo, cerca de 800 milhões de toneladas/ano, é descartada em aterros. O Conselho de Pesquisa em Tecnologia de Geração de Energia a Partir de Resíduos dos Estados Unidos estima que um metro quadrado de terreno é desperdiçado, para sempre, para cada dez toneladas de lixo aterrado.

Diz o estudo da ONU que de 20% a 30% dos orçamentos municipais já estão comprometidos com a coleta e destinação desses resíduos. Mas a conta poderia ser muito mais salgada, já que só metade da população mundial é atendida por coleta, de acordo com a Associação Internacional de Resíduos Sólidos (Iswa). África, Sudeste Asiático e América Latina são as regiões onde essa coleta é mais deficiente e a Iswa estima que seria necessário um investimento anual de US$ 40 bilhões (cerca de R$ 94 bilhões) apenas para garantir que o lixo nessas regiões seja recolhido.

Segundo o Guia de Estratégias Nacionais para o Manejo do Lixo: mudando de desafios para oportunidades, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), essa situação, além de prejudicar a economia, representa riscos à saúde e ao meio ambiente. A falta de coleta ou o descarte em locais inapropriados contamina o solo e os cursos d’água, a queima sem controle polui o ar e o baixo uso de materiais reciclados acelera o esgotamento dos recursos naturais.

Para o presidente da Iswa, David Newman, a explicação é simples: a população, além de crescer rapidamente desde o século passado, também tem cada vez mais acesso à renda, o que aumenta o consumo e a produção de lixo. Países desenvolvidos produzem mais RSU por habitante porque têm níveis mais elevados de consumo. À medida que os países vão se tornando mais ricos, há uma redução gradual dos componentes orgânicos no lixo. A proporção de plásticos, metais e papel no lixo doméstico fica maior.

Riqueza = mais lixo

As nações desenvolvidas, reunidas na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), consomem mais de 60% de todas as matérias-primas industriais, mas respondem por apenas 22% da população mundial. No ranking liderado pelos norte-americanos (624 mil toneladas por dia), quatro nações em desenvolvimento (China, Brasil, Índia e México) aparecem entre os dez maiores produtores de lixo (veja infográfico na pág. 59). A lista mostra uma discrepância significativa da parcela que cada nação tem no problema, já que, por exemplo, os EUA geram sete vezes mais resíduos sólidos urbanos do que a França, a 10ª colocada.

Por isso, nas últimas décadas, cresceu muito a pressão sobre as economias mais ricas para acabar com a cultura de descartar um produto como lixo após um único uso.

Consumo americano

A filosofia ideal de gerenciamento de resíduos se escora em metas claras: reduzir o consumo, reutilizar ou então reciclar os materiais e, como último recurso, recuperar o conteúdo energético do que não puder ser reutilizado ou reciclado. O desafio é como harmonizar essas premissas com, por exemplo, a redução das desigualdades sociais e econômicas.

Um estudo da Universidade de Columbia estimou que o consumo de energia e a geração de resíduos sólidos per capita nos EUA são o dobro daqueles dos europeus e japoneses, que têm padrão de conforto similar. Em 2010, de acordo com a ­Agência de Proteção Ambiental (EPA) daquele país, 34 milhões de toneladas de sobras de comida foram parar nas lixeiras.

Ou seja, uma mudança de hábitos de vida dos americanos produziria um impacto importante nas contas de energia e destinação de lixo. Além disso, 55% dos RSU foram encaminhados para aterros, um índice muito elevado se comparado a outros países ricos. E, se o número de aterros caiu drasticamente desde os anos 1980 (de 8.000 para 1.754), a capacidade se manteve constante.

O mercado global do lixo, da coleta até a reciclagem, movimenta US$ 410 bilhões por ano (R$ 940 bilhões). Um relatório de 2012 da União Europeia estimou que a adoção completa da legislação ideal sobre lixo traria, ao final desta década, uma economia de 72 bilhões de euros (R$ 216 ­bilhões) por ano, um aumento de 42 bilhões de euros (R$ 126 bilhões) no faturamento do setor de coleta e reciclagem de resíduos sólidos e a criação de 400 mil empregos no setor, que já oferece 2 milhões de postos de trabalho. Sob o lema "Lixo torna-se ouro", o relatório traz um ranking de países no tratamento de lixo e na reciclagem, encabeçado pela Alemanha (leia mais a partir da pág. 52).

Disparidades europeias

O problema é que, na União Europeia, existe grande diferença entre os países-membros: enquanto Alemanha, Áustria, Holanda e Bélgica, por exemplo, estão muito avançados, outros países, em geral do Leste Europeu e até a Itália, receberam avaliações ruins.

"Muitos Estados-membros ainda estão colocando grandes quantidades de lixo urbano em aterros, apesar de existirem ­melhores alternativas e de termos oferecido fundos de financiamento para que o cenário mudasse. Recursos preciosos estão sendo enterrados, ganhos econômicos desperdiçados, empregos perdidos, com prejuízos para a saúde humana e o meio ambiente", lamentou o comissário para o Meio Ambiente da UE, o esloveno Janez Potonik.

Confrontados com o desafio de harmonizar o acelerado crescimento da demanda de energia com a necessidade de gerenciar melhor a questão dos resíduos sólidos, vários países têm optado por investir nas tecnologias de aproveitamento energético do lixo. As duas vias principais em escala mundial são a queima direta em usinas de resíduos-energia (ou waste-to-energy, no inglês) e a queima do biogás produzido a partir da decomposição da matéria orgânica do lixo.

Existem hoje no mundo aproximadamente 1,5 mil usinas térmicas, que queimam o lixo para gerar energia ou calor em 35 países. O Japão, o bloco europeu, a China e os Estados Unidos lideram o ranking. As usinas reduzem a cerca de 10% o volume do lixo que entra, transformado em cinzas que podem ser aproveitadas como base de asfalto ou na construção civil. No processo, produzem energia elétrica, vapor, água gelada e combustível. A tecnologia de queima ideal, que reduz a um mínimo os impactos ambientais, é cara e o custo do megawatt-hora produzido é bem superior a outras fontes convencionais. Já a compostagem tem sido incentivada principalmente na Europa Ocidental.

Nos EUA, existem 87 usinas resíduos-energia, que processam 28 milhões de toneladas de lixo. Desde a década de 1990, todas elas passaram por modernizações determinadas pela EPA, restringindo as emissões de gases tóxicos ou prejudiciais à saúde.

Consciência x tamanho

A consciência com relação ao lixo também varia. Para muitos países, a abundância de espaço e de recursos serve como ­desestímulo para a educação ambiental. São os casos de emergentes como China, Brasil e México. Já países onde há escassez de área disponível, caso comum na Europa, têm despertado para a urgência de se dar um destino mais racional e ecologicamente adequado para os resíduos sólidos.

Presidente do Instituto Gea —Ética e Meio Ambiente, Ana Maria Domingues Luz, mestra em Ciência Ambiental pela USP, destaca os avanços alcançados em países escandinavos, Alemanha e Japão. Ela conta que muitas cidades ­japonesas adotam um modelo ainda mais sofisticado de coleta seletiva, no qual apenas um tipo de lixo é descartado por dia — queimável (resto de comida, madeira e papel), plásticos, quebráveis (vidros, lâmpadas), lixo grande (móveis velhos), reciclável etc.

Diversas soluções inovadoras têm sido adotadas. Nos países europeus, há décadas existe a cobrança de taxas pelos serviços de limpeza pública. Na Alemanha, o consumidor paga pelas embalagens que adquire, estimula-se o uso de vasilhames retornáveis e a maioria dos supermercados não fornece sacolas gratuitamente.

"Não existe um resíduo sólido, mas inúmeros tipos e, assim, não se pode acreditar que haja apenas uma solução", define José Renato Baptista de Lima, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). "Embora a questão aponte desafios comuns, não há uma única solução, pois é preciso considerar a especificidade da cultura do descarte e do padrão de desenvolvimento socioeconômico", completa Sylmara Gonçalves Dias, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Com eles concorda o professor Daniel Hoornweg, do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário, no Canadá. "Não existe uma forma ideal de descartar o lixo. Todas as opções são caras e têm múltiplos impactos, por isso os gestores devem escolher entre uma série de alternativas desafiadoras. Decisões melhores são tomadas quando o público é parte do processo e apoia o programa adotado."

Autor: Senado Gov.
Fonte: Senado Gov.